segunda-feira, julho 10, 2006
O intelectualismo
O andré fala aqui contra o intelectualismo anti mundial de futebol. O que tenho lido por aí não me parece um intelectualismo anti mundial, mas sim um intelectualismo anti modo português (em especial o modo comunicacional) de tratar a realidade que rodeia o futebol. Jornalistas vestidos de camisola da selecção, um completo seguidismo informatismo em nome de "altos interesses", a multiplicação de horas de "informação" sem nada para dizer nem mostrar e por aí fora.
Eu também fiquei de boca aberta com o golo de Maxi Rodriguez ao México, delirei com o espectáculo de Pirlo na segunda parte e prolongamento do Itália-Alemanha, vi um pormenor fabuloso de Deco no jogo com a Alemanha que a televisão só mostrou em tempo real, e foi pena, muita pena, não ter visto Brasil (todos nós sabemos que o Brasil não esteve no mundial).
Isso e muito mais, apesar de ter visto pouco do mundial.
O que verdadeiramente aflige é o tratamento desmesurado que, em Portugal, é dado ao tema da bola. Jornais de referência que abrem consecutivamente com mais de 10 páginas dedicadas ao mundial, dezenas de comentadores que mais não são do que palradores inconsequentes, e, por fim, uma espectáculo televisivo pindérico em torno de um resultado honroso (sem dúvida) mediaticamente transformado em feito nacional. Ao mesmo tempo que, por exemplo, a maioria dos noticiários televisivos nem sabem quem é Vanessa Fernandes (esse google a trabalhar, sff, para quem não souber).
quanto ao espectáculo em si, eu penso que o André tem toda a razão quando diz que "o futebol não educa, não 'instrói'. O futebol faz parte essencial da sociedade do espectáculo e potencia o melhor e o pior de todos nós". O problema reside no estatuto de alienação colectiva a que o futebol é promovido, infelizmente, neste caso específico, em Portugal.
A imagem dada pelos média portugueses é a de que nada mais interessa durante esse mês para o público. Não interessa que os japoneses ameaçem atacar a Coreia do Norte, que no Afeganistão, depois de algumas adversidades, os terroristas estejam a recuperar do pequeno revés sofrido em 2003, ou que Israel esteja empenhadíssima (enquanto o mundo olha para a teamgeist) em destruir a Faixa de Gaza pedra a pedra. Pega-se em qualquer jornal de referência português e colaca-se ao lado de qualquer jornal regional das Canárias, por exemplo, durante este mês de Mundial (incluindo quando Espanha ainda sonhava) e, no mínimo, coramos de vergonha.
Aliás, ler os jornais de outros países durante este mês de mundial ajudou-me a saber muito mais (e melhor) sobre o mundial do que os rios de tinta consumidos pelos nossos jornais. Em português, o melhor deste mundial esteve na escrita dos brasileiros, nos textos de Ferreira Fernandes e nos comentários antes dos jogos feitos por André Vilas-Boas, um dos anjos de Deus Mourinho.
Quanto à teamgeist propriamente dita, o que se viu foi um mundial onde todos compareceram menos os jogadores. A maioria arrastava-se penosamente pelos relvados, ora sufocando do calor insuportável imposto pela ditadura televisiva, ora pagando os efeitos físicos de uma longa e já de si desgastante época.
 
Postado por nuno mendes em 7/10/2006 |


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