Acompanho os trabalhos da Assembleia Legislativa dos Açores desde Novembro de 2000. Quer como jornalista, quer como assessor de imprensa, assisti a vários debates em que as bancadas do público estavam preenchidas. Pescadores, sinistrados do sismo de 1998, professores ou funcionários de IPSS são alguns dos grupos que vi ali sentados a assistir a discussões que lhes diziam respeito.
Ontem e hoje debateu-se a proposta de legalização da sorte de varas, que acabou por ser chumbada. E quem estava na bancada do público a assistir? Um representante da Tertúlia Tauromáquica Terceirense e a esposa de um membro do governo (que não se encontrava ali a defender qualquer posição). Mais ninguém.
Na rua o cenário era idêntico. Não havia manifestações nem palavras de ordem.
Tudo isto contrasta com o frenesim e alguma histeria em torno deste assunto que marcaram a blogosfera açoriana nas últimas semanas.
Afinal, a sorte de varas não é, nem nunca foi, um assunto central da vida dos açorianos. A maioria das pessoas não quis saber disto para nada. Aliás, nas ilhas sem tradição tauromáquica a maior parte dos cidadãos nem sequer tem bem a noção do que são touradas picadas.
A blogosfera açoriana não é um reflexo da realidade das nossas ilhas. É apenas uma pequena amostra. Logo, não tem o papel que se lhe quer conferir na vitória do "Não" à sorte de varas.
A influência da blogosfera nesta matéria foi residual. Ou seja, próxima do zero. O resultado foi decidido, sobretudo, graças às manobras de bastidores nos passos perdidos do parlamento - algumas legítimas, outras nem por isso.
Adoro este mundo dos blogues. A paixão pode ter-se desvanecido, mas o amor permanece. Apesar de serem cada vez menos os que ignoram os blogues, digo sempre às pessoas com quem trabalho e que desconhecem este meio que nunca devem ignorar a blogosfera.
Para aqueles que decidem, todas as opiniões válidas contam. Mas também faço questão de sublinhar que dezenas de opiniões, lidas diariamente por algumas centenas (não mais do que isso) de pessoas, estão muito longe de representar a nossa sociedade, não devendo ser sobrevalorizadas.
É fantástico que cada vez mais açorianos, graças a uma ferramenta de publicação extremamente simples, exprimam as suas opiniões, constribuindo para o debate democrático.
Mas convém ter a humildade suficiente para se perceber que a influência da nossa blogosfera, apesar de ter vindo claramente a aumentar ao longo dos anos, ainda é muito escassa.
Este post, embora construtivo, não pretende ser simpático. É uma sincera chamada de atenção a quem anda pela blogosfera.
Desenganem-se aqueles que julgam que foi a pressão vinda dos blogues que deu a vitória ao "Não" à sorte de varas. Desçam das nuvens e voltem a ter os pés bem assentes no chão.
Caso contrário, arriscam-se a ficar a falar em circuito fechado.