terça-feira, março 07, 2006
dores de cotovelo
Aqui tem sido possível acompanhar o crescendo de críticas que têm vindo a ser feitas a partir de Angra do Heroísmo contra o desenvolvimento económico de S. Miguel, que muitos julgam sustentado apenas pelo governo. E lê-se, ou ouve-se, de tudo. Que a Sata não tinha nada de estar sedeada em Ponta Delgada, que o porto de Ponta Delgada não devia ser tão utilizado, que são muitos aviões, muitos turistas e que, ainda não se ouviu mas falta pouco, S. Miguel quanto muito deve ficar tão pobre como os outros.
O debate, à partida, fica inquinado quando a maioria dos seus participantes ignora o óbvio: S. Miguel cresce mais do que os outros porque tem mercado. E o mercado, ao contrário do que a maioria pensa, não é constituído pelos turistas. É constituído pelos turistas e pelos residentes. É isso, por exemplo, que permite a qualquer negócio ter muitos clientes no Verão e clientes no Inverno. Pelo menos os suficientes que asseguram a manutenção do negócio em si.
Depois, como já se escreveu aqui há algumas semanas, o desenvolvimento não é nomeado por decreto.
Aliás, toda a lógica que tem sido apresentada (ouvir a reportagem delírio da Antena 1) limita-se a exigir do governo tudo e a não pedir nada dos próprios. O governo devia ter colocado a sede da Sata noutra ilha, o governo devia asfixiar o porto de Ponta Delgada para priveligiar o porto da Praia da Vitória, o governo devia concentrar a Universidade noutro local para fomentar o desenvolvimento desse outro local, o governo isto, o governo aquilo e o governo aqueloutro.
Ou seja, a lógica de desenvolvimento para a maioria das pessoas passa exclusivamente pelo governo e pelo desvio de investimentos de uma ilha para a outra. Chego mesmo a pensar que não é o desenvolvimento das outras ilhas que está em causa e que a maioria dos participantes nem sequer se preocupa muito com isso. Os termos utilizados ultimamente na Terceira mostram que não é bem o reduzido crescimento da Terceira que está em causa, mas sim o crescimento dos outros.
E eu não sei do que se queixam. O governo acaba de desviar investimentos da coesão para construir um parque etnográfico e, quase de certeza, já se prepara para desviar dinheiro das ilhas em dificuldade para o aumento da pista do Faial. O vice-presidente do governo (responsável pelas finanças do arquipélago) passa a vida a inaugurar revaldos artificiais no concelho de Angra do Heroísmo, o secretário da Saúde está a tentar desviar de Ponta Delgada (onde estão os doentes) um equipamento de radioterapia que a própria empresa só quer instalar aqui, a cultura continua a apoiar dezenas de trabalhos de duvidosa qualidade na Terceira e a ignorar os trabalhos que são feitos em S. Miguel (ou nas outras ilhas), etc.
A dor de cotovelo é a pior estratégia para o desenvolvimento.
 
Postado por nuno mendes em 3/07/2006 |


2 Comments:


  • 07 março, 2006 13:49, Blogger Vitor Marques

    O governo devia mandar 97.458 micaelenses pra Terceira, para desenvolver de vez a ilha.

     
  • 07 março, 2006 15:48, Blogger K2ou3

    eu acho que nem são dores de cotovelo. São simples Câmbras na lingua.
    Afinal S. Miguel tem quase metade dos habitantes dos Açores e produz cerca de 56% do PIB regional.
    Eu sei onde é que eles teem as dores, quando pem para fora, eu sei!.