segunda-feira, novembro 21, 2005
Partido Açores
José Sócrates não se deverá esquecer tão depressa da sua passagem pelos Açores. O secretário-geral dos socialistas teve direito ao tratamento VIP normalmente reservado por Carlos César a parceiros incómodos: entrou pela porta das traseiras, ouviu uma intervenção duríssima de Carlos César, falou e saiu pela mesma porta das traseiras.
E o que ouviu José Sócrates? Que as regiões autónomas não merecem o espartilho da Lei de Estabilidade Orçamental porque os bons alunos não merecem ser punidos pela irresponsabilidade dos que nunca estudam. Em suma, que o Estado se rege por leis e que a única coisa que se pode esperar é que o Estado cumpra as suas próprias leis.
Para lá da reprimenda ao primeiro-ministro, o que fica do XII Congresso do PS/Açores, cada vez mais transformado no Partido Açores de base socialista, é a sensação instalada de normalidade. Ou seja, há governo, há partido do governo e poucas sombras de oposição. E que se adivinha para o próximo congresso do PSD/Açores é que essas ténues nuvens de oposição de desvaneçam um pouco mais.
O Partido Açores também se pode chamar Partido César, orientado agora para a tentativa de lhe conferir uma consciência crítica. O estatuto do simpatizante é isso mesmo. Ninguém precisa de ser socialista para aderir ao Partido Açores. Neste congresso Carlos César não o disse, mas podia ter dito: à falta de oposição, o melhor é arranjarmos a nossa própria oposição.
Este eclipsar da direita açoriana é preocupante e devia ser motivo de reflexão para todos aqueles que se preparam, no próximo congresso do PSD/Açores, para espetar mais três ou quatro pregos no caixão do seu definhamento.
Dez anos depois de ter perdido o governo regional, o PSD/Açores continuam sem perceber que os Açores estão diferentes. Que a sociedade açoriana está a mudar radicalmente e que as respostas que parece ter para dar não são mais do que o regresso a um passado do qual já ninguém se lembra. E do qual já nem sequer há saudades.
Carlos César saiu, como se alguém esperasse que fosse diferente, endeusado pelos militantes do partido. Podia ser diferente. Há beira de assinalar uma década em Sant’Ana, o PS/Açores só não detém Ponta Delgada, numa lista de poder que inclui a Ribeira Grande, Lagoa, toda a ilha Terceira, o Faial, as Flores, o Corvo. Carlos César ainda não pensou sobre o seu futuro político. O estado da oposição ajuda a que ainda leve algum tempo para decidir.
Daqui a um mês, o PSD/Açores reúne-se para mais um congresso micaelense em que os delegados das ilhas mais pequenas (curiosamente onde ainda existem social democratas) vão assistir a um conjunto elevado de manobras de bastidores, jogadas tácticas, coordenações de indisponibilidades, marcações cerradas, etc. Mais uma vez os social democratas vão reunir-se a tentar perceber quem pode ganhar as eleições. A resposta foi dada este fim de semana. Carlos César.
publicado hoje no Jornal dos Açores
 
Postado por nuno mendes em 11/21/2005 |


3 Comments:


  • 21 novembro, 2005 10:51, Blogger K2ou3

    Este é dos casos em que o melhor da festa é mesmo só o esperar por ela.

     
  • 21 novembro, 2005 13:10, Blogger EGA

    Excelente artigo, na linha do que é usual pelo nuno mendes. Só uma adenda. O PSD começou a definhar a partir do final dos anos oitenta, quando se julgou "Partido Açores", e tentou fazer oposição a si próprio (Dâmaso). Quando se julgou acima de tudo, que tudo lhe era premitido. Foi uma questão de tempo. Isto não entra em contradição como o artigo publicado.

     
  • 21 novembro, 2005 22:20, Blogger H. Blayer

    Sócrates ouviu uma intervenção duríssima de César? Sinceramente, não acho. Acho mesmo que Carlos César deixou algumas coisas por dizer a Sócrates e outras por esclarecer aos socialistas em particular e aos açorianos em geral