terça-feira, agosto 08, 2006
Política "silly"
Ao fim de seis anos o presidente do Governo Regional conseguiu marcar as suas férias de modo a poder estar presente nas festas da Praia da Vitória. Em condições normais este episódio não mereceria grande relevo, não fosse o ostracismo a que o concelho terceirense foi votado ao longo dos últimos anos. É que a visita efectuada no último fim-de-semana por Carlos César só aconteceu após a autarquia ter “virado” socialista, após 12 anos de gestão social-democrata.
Durante esse período o presidente do Governo Regional nunca se preocupou em arranjar tempo para deslocar-se à Praia da Vitória e o seu executivo não apoiou financeiramente a Feira de Gastronomia do Atlântico, que César agora elogiou. Em 12 anos também a câmara municipal, liderada então por José Fernando Gomes, contribuiu para a guerrilha: basta recordar o “show-off” feito pela autarquia em torno da oferta de terrenos camarários à Região para que o novo hospital da Terceira fosse instalado na Praia da Vitória, quando a maioria da população está em Angra do Heroísmo.
Estes são apenas alguns exemplos de “partidarite aguda”, doença de que enferma a democracia açoriana. Se é certo que esta altura do ano é conhecida por “silly season”, a verdade é que as guerrilhas político-partidárias marcam, infelizmente, todas as estações do ano na Região. Estas questões até nem são um exclusivo da política açoriana, ou de uma força política, mas com o mal dos outros podem bem os açorianos. No entanto, o mesmo não se pode dizer do resultado de guerrilhas entre entidades com diferentes cores políticas, pois os cidadãos acabam sempre por ser os grandes prejudicados. Veja-se, por exemplo, o embargo às obras do parque de estacionamento de São João, em Ponta Delgada. A câmara municipal, do PSD, iniciou as obras sem dar “cavaco” à direcção regional da Cultura, do governo socialista, apesar da proximidade de um imóvel classificado. O departamento governamental, mesmo tendo conhecimento do arranque das obras, levou um mês para embargá-las.
E assim vai a política açoriana, cujos protagonistas encaram os partidos como clubes de futebol. O que conta não é entreter os adeptos com boas exibições, mas sim vencer a todo o custo e humilhar o adversário, nem que seja com a ajuda do árbitro. O mesmo se aplica à sociedade civil, em que determinadas posições assumidas por cidadãos livres são imediatamente conotadas politicamente. Como se as pessoas não pudessem pensar pela sua própria cabeça.
Mas voltemos ao início: a presença do presidente do Governo Regional nas festas da Praia da Vitória. Quem tiver bem presente o historial do relacionamento entre a autarquia terceirense, quando era gerida por social-democratas, e o executivo regional sabe que Carlos César só se deslocou ao evento porque a câmara municipal agora é do PS. Caso contrário, continuaria a primar pela ausência.
E é pena que assim seja. Carlos César já conquistou um lugar na história, pelo trabalho desenvolvido desde 1996 à frente dos destinos dos Açores. Chamou independentes para a governação e para lugares de relevo, desagradando ao seu partido. Conquistou, com um comportamento exemplar, capital político nas estruturas nacionais do PS no período negro da liderança de Ferro Rodrigues, que não teve o sangue-frio necessário perante os efeitos perversos do processo Casa Pia. Isto já para não falar nas diversas e claras vitórias eleitorais.
Apesar de tudo isto, Carlos César é incapaz, por vezes, de escapar à “partidarite aguda” que grassa na política açoriana. Conseguirá colocar-se acima desta “doença” e ficar na história como um verdadeiro estadista? Já não tem muito tempo…

Publicado hoje no JORNAL DOS AÇORES
 
Postado por Rui Lucas em 8/08/2006 |


4 Comments:


  • 08 agosto, 2006 10:46, Blogger JNAS

    ...é caso para dizer que meteram a viola no saco ?

     
  • 08 agosto, 2006 11:28, Blogger jocaferro

    Parabéns.
    Com uma redacção destas não mando bitates.
    Cumprimentos.

     
  • 08 agosto, 2006 14:15, Anonymous Anónimo

    Como diz o povo

    BOCA SANTA

     
  • 11 agosto, 2006 01:17, Anonymous Anónimo

    Nem tudo o que é bom português é isento de reparos. Neste caso no concelho da Praia foi no tempo do PSD na Câmara q o governo d César fez o Porto da Praia, o 4º troço pagou à autarquia as casas do bairro de Santa Rita. Foi tb o tempo do PSD usar as Câmaras para fazer guerrilha! César já está na história dos Açores e, na política activa, ainda vai continuar por mais uma legislatura como Presidente para o bem do futuro dos Açores!