segunda-feira, fevereiro 20, 2006
Etnografias
Dez anos depois de ter chegado à secretaria da Economia, Duarte Ponte, justificou a saída de S. Jorge do plano de actividades do fundo de coesão regional alegando não saber ainda quais os projectos orientadores para a ilha. No lugar de S. Jorge, aparece a Terceira que irá ganhar em breve um parque etnográfico, prometido em eleições pelo PS para a falida câmara municipal de Angra e, ao que parece, assumido agora por todos os contribuintes do arquipélago. Todos os açorianos, incluindo os das ilhas de coesão excluídas, vão suportar a incompetência financeira de uns quantos.
Se não pode ser normal, um governante surgir de surpresa a desvirtuar por completo aquilo que tinha sido assumido como um compromisso eleitoral (o do fundo de coesão), ainda menos normal parece ser a vontade em dar explicações. Pior ainda, é a aparente falta de vontade da oposição em pedir esclarecimentos sobre esta atitude de exclusiva coesão socialista. Não se pode compreender o silêncio do PSD/Açores nesta matéria. Ou será que o partido não tem coragem de o contestar apenas porque se trata de uma parque etnográfico na Terceira? Fosse noutra ilha e, talvez, os sociais-democratas demonstrassem mais empenho.
O que não foi explicado (este secretário pensa sempre que não tem de explicar nada a ninguém) é, precisamente, os motivos que levaram à escolha: porquê um parque etnográfico na Terceira e não investimentos no Pico ou no Faial (ilhas com maiores dificuldades do que a Terceira)? Sabiam os empresários das outras ilhas que afinal a “Ilhas de Valor SA” terá actividade em todo o arquipélago? Foram consultados, foram pedidas candidaturas em todas as ilhas? O governo lembrou-se do parque etnográfico por se ter lembrado? Por saber que era um compromisso do PS na Terceira? Para combater a falta de dinheiro da câmara angrense? Por favor?
Costa Neves tem aproveitado os primeiros meses da sua liderança para questionar a qualidade da democracia nos Açores e a suposta falta de liberdade existente. Então, neste caso a oposição não estranhou nada? Ou a oposição é feita consoante a dimensão nas ilhas. O pior, no entanto, é que esta falta de respostas e de perguntas faz também passar a própria Terceira por uma imagem algo injusta. Ou alguém pensa que os terceirenses ficam confortáveis por ver políticos subverter o espírito do fundo de coesão e passar por pobrezinhos a pedinchar um parque etnográfico. O silêncio do PSD sobre o assunto demonstra que a oposição precisa de um verdadeiro choque democrático.
A propósito de oposição, convém recordar um texto de Vasco Pulido Valente publicado no PÚBLICO do passado sábado. Trocando as referências nacionais por regionais, o texto aplica-se como uma luva aos sociais democratas: o partido não tem um “spin doctor” que se veja, faz oposição a reboque do governo (e nem sequer aproveita todas as oportunidades), vive de uma suposta agenda parlamentar que ninguém acompanha, e continua sem responsáveis que respondam aos secretários ou que façam oposição no dia a dia. Trocaram este trabalho contínuo pelo, bem mais fácil, escrevinhar permanente de requerimentos. Ou seja, sem perceber que o mundo pulou e avançou. Aliás, que pula e avança todos os dias, mesmo que nos dias em que todos discutem o fundo de coesão o PSD ande distraído com os problema de meia dúzia de taxistas e com a percentagem dos turistas chegados à Terceira.
Publicado na edição de hoje do Jornal dos Açores.
 
Postado por nuno mendes em 2/20/2006 |


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